Árvore refugiada: um inusitado pedido de socorro!

Sérgio Guimarães*

Aconteceu! Foi durante o recente evento “24 horas de realidade: contagem regressiva para o futuro”, promovido pela Climate Reality Brasil, conversa global sobre a crise climática, a pandemia de COVID-19 e a injustiça racial que o inusitado pedido foi ouvido. Trata-se de um pedido insólito. Fugindo do desmatamento e das queimadas que devastam a Amazônia e outros biomas brasileiros, um Jatobá, espécie ameaçada de extinção, pediu refúgio em embaixadas de países estrangeiros em Brasília, para salvar não apenas a própria vida, mas também a Amazônia e outros biomas brasileiros, onde está presente.

A árvore denuncia as crescentes ameaças, a perseguição e o risco de vida que sua espécie e milhares de outras estão sofrendo no Brasil diante da extinção em massa provocada pelo aumento do desmatamento e das queimadas. Segundo definição do Alto Comissariado para Refugiados das Nações Unidas (ACNUR), refugiados estão fora de seu país de origem devido a fundados temores de perseguição, como também devido à grave e generalizada violação de direitos e conflitos.

O pedido de refúgio faz sentido. Segundo números do Deter, sistema do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento da Amazônia somou 10.129 km² no período entre agosto de 2018 e julho de 2019. De agosto de 2019 a julho de 2020, esse número cresceu mais de 30%. Ou seja, mais 10.000 km²! As queimadas também atingiram áreas recordes na Amazônia em 2020. De janeiro a setembro deste ano, o número de focos registrados, cerca de 90 mil, é o maior desde 2010.

O Pantanal, um dos biomas mais preservados do país, é é outro que registrou números recordes de focos de incêndio este ano. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas do Pantanal (INPP) e da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), mostram que pelo menos 23 mil km² foram consumidos pelas chamas em 2020. O número é maior que a área perdida entre 2000 e 2018, que foi de 2,1 mil km² de área nativa, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Os números deixam claro os motivos pelos quais o Jatobá clama por socorro. A árvore pede para nos engajarmos na campanha “5 Medidas Emergenciais para Combater a Crise do Desmatamento da Amazônia” formuladas por cientistas e entidades que atuam no território, cuja a primeira delas e estabelecer uma moratória do desmatamento da Amazônia por pelo menos cinco anos. A íntegra das medidas está publicada no site www.arvorerefugiada.com.br e chama para a assinatura de uma petição. No site também é possível assistir ao vídeo com o pedido de ajuda.

Além da Climate Reality Brasil, respondem ao pedido e se engajam na campanha, o GT Infraestrutura e Justiça Socioambiental, grupo de trabalho com 40 organizações socioambientais que atua conjunto com organizações locais e o Engajamundo, uma rede de jovens que promove o engajamento político como meio de transformação da realidade.

“Nosso meio ambiente está sob ataque de pessoas e estruturas que deveriam protegê-lo. Precisamos chamar a atenção para essa tragédia em curso, e mobilizar muito além da comunidade internacional para reverter esse cenário”, afirmou Renata Moraes, gerente do Climate Reality Brasil. A organização de jovens Engajamundo também salientou a importância da ação: “A Amazônia pede socorro há anos. O pedido de refúgio desta árvore ameaçada de extinção simboliza não somente a sobrevivência deste e outros seres vivos que são essenciais para a vida no planeta, mas também dos muitos povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, entre tantos outros que vivem na Amazônia e que lutam para proteger a floresta e seus territórios.

Esse inusitado pedido de refúgio mostra a gravidade da situação de milhões de árvores e outras formas de vida que estão sendo exterminadas sem ter a quem recorrer no Brasil, onde autoridades responsáveis por sua proteção muitas vezes estão aliadas aos destruidores. Cabe a nós, cidadãos, nos posicionar em defesa desta e de milhões de árvores em busca de uma solução, que começa pela implementação das cinco medidas emergenciais de combate ao desmatamento, o que permitirá que milhões de árvores, nossas florestas e seus habitantes possam viver em paz no Brasil, prestando seus relevantes serviços climáticos para nós e a todo o planeta.

Este artigo foi escrito pelo Secretário Executivo do GT Infraestrutura, Sérgio Guimarães, e originalmente publicado no Portal Neo Mondo.

Foto: Pixabay

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