Eficiência Enérgetica

A eficiência energética pode ser considerada como a prioridade mais bem distribuída entre os agentes do setor elétrico brasileiro, praticamente uma unanimidade.

Todos são a favor. É como o bom senso, considerado por René Descartes no século XVII como a característica humana mais bem distribuída, pois é (quase) impossível ouvir alguém dizer que não o tem. Consideramos que falta bom senso sempre nos outros, mas quase nunca em nós.

Embora a eficiência energética seja unanimidade, ela parece nunca acontecer. Parece sempre um projeto a se realizar.

Não porque a eletricidade economizada é invisível, já que não a vemos passar no medidor de nossas casas. Mas porque basicamente falta vontade política para romper com toda uma lógica de planejamento, funcionamento e remuneração dos agentes do setor elétrico historicamente que não incentivam a eficiência energética: quanto mais energia for gerada, transportada, distribuída e vendida, melhor. Redução do consumo de eletricidade, nessa visão seria perder dinheiro: receita para esses agentes e arrecadação de tributos na esfera federal, estadual e municipal. Essa falta de entendimento e vontade política é refletida em baixa governança da eficiência energética no Brasil, contaminando em efeito cascata a imensa maioria dos esforços feitos nesse sentido.

Embora a eficiência energética seja unanimidade, ela parece nunca acontecer. Parece sempre um projeto a se realizar.

Para o caso de um banco de desenvolvimento, como o BNDES, o ideal é que seus financiamentos operassem de forma consistente com as diretrizes e metas de políticas públicas para eficiência energética de médio e longo prazos. No entanto, infelizmente, não existe ainda no país uma política para eficiência energética. Esta só é lembrada quando há crises de energia (crises do petróleo na década de 1970, racionamento compulsório de eletricidade em 2001).

O que se pode dizer é que o país possui diversos mecanismos e programas na área, uma experiência importante que vem se acumulando desde a década de 1980, fruto das crises do petróleo. Porém sua baixa governança não propiciou até o momento a transformação do mercado de eficiência energética. Esses dois conceitos são melhor apresentados a seguir porque os consideramos fundamentais para se construir e se manter um mercado sustentável de eficiência energética que traga benefícios diretos e indiretos a seus consumidores, sejam sob o chapéu de usuário de energia, seja como de cidadão.

Antes disso é importante conceituar brevemente o que se entende por eficiência energética.

O que é eficiência energética?

Muito se fala nela e percebemos com a vivência e nos meios de comunicação em geral que é necessário haver um entendimento melhor sobre o que se entende por eficiência energética até para que se tenha uma visão mais informada e crítica sobre o tema.

Todo uso da energia envolve perdas energéticas. Por exemplo, quando uma lâmpada, uma geladeira, um aspirador de pó e um motor de carro esquentam com o uso, significa que uma parte da eletricidade ou combustível se perde na forma de calor e a outra é efetivamente utilizada para fazê-los funcionar (iluminar, refrigerar, aspirar, transportar). Assim, utilizar equipamentos mais eficientes significa equipamentos que perdem menos energia no processo de conversão daquela eletricidade ou combustível nos serviços energéticos que desejamos: iluminação, refrigeração, aspiração e transporte. Os serviços energéticos são também conhecidos como usos finais de energia.

Todo uso da energia envolve perdas energéticas.

Portanto, eficiência energética é conseguir realizar o mesmo serviço energético, como iluminação, refrigeração de alimentos e vacinas, climatização, movimentar mercadorias e pessoas de um lugar a outro, utilizando menos energia para realizá-lo. Alternativamente, é realizar mais do mesmo serviço energético utilizando a mesma quantidade de energia.

Para ilustrar o conceito acima, vamos usar o exemplo do conjunto motor-bomba da Figura 1. A eletricidade é utilizada para mover o eixo do motor, que por sua vez, aciona o eixo de uma bomba hidráulica usada para transportar água de um lugar ao outro (por exemplo, de um poço para uma caixa d’água acima de uma casa). Esse transporte é o objetivo final desse processo, portanto é o serviço energético que se quer obter com o uso da energia. Esse serviço energético requer uma energia útil para ser realizado. A quantidade de energia necessária para fornecer essa energia útil que prestará o serviço energético dependerá dos equipamentos utilizados e de suas eficiências. Então, vejamos.

Figura 1 - Exemplos de eficiência energética através de melhoramentos técnicos em um sistema motor-bomba. Fonte: Jannuzzi e Swisher (1997).

Na primeira ilustração, de cima para baixo, da Figura 1, tem-se que são necessárias 31 unidades de energia útil para realizar o serviço energético de bombeamento de água. Mas

as tecnologias empregadas para fazer esse serviço energético possuem perdas intrínsecas a elas, de maneira que é preciso fornecer 100 unidades de energia para que se possa ter na outra ponta as 31 unidades necessárias (perde-se no caminho 69 unidades de energia). Assim, a eficiência energética total é de 31/100, ou 31%. Na medida em que passamos a acrescentar tecnologias mais eficientes, passa-se a precisar não mais daquelas 100 unidades de energia, mas de 51 (ilustração do meio) e 43 (ilustração de baixo) para fazer chegar as 31 unidades requeridas pelo serviço energético: eficiências de 31/51 (60,8%) e 31/43 (72,1%), respectivamente.

É importante destacar que ser mais eficiente energeticamente não se limita apenas às tecnologias, mas também a mudanças em processos e substituição de energéticos.

E, por fim, a eficiência energética é um recurso energético, mesmo que invisível a nossos olhos e aos medidores, tal como o petróleo, a energia solar, a biomassa, o carvão, a energia eólica e a hidráulica. Quanto mais cara a energia, mais se torna economicamente viável a exploração das reservas de eficiência energética localizadas em “campos” mais difíceis, tal como ocorre com os campos de petróleo, cada vez mais explorados em águas profundas. Especificamente, a eficiência energética é o que hoje se chama de um recurso energético distribuído, por estar no próprio local ou próximo ao uso final da energia . Outros recursos energéticos distribuídos são a geração distribuída, o gerenciamento da demanda e o armazenamento de energia.

Acompanhe as iniciativas de eficiência energética no Brasil:

IEI Brasil

[1] http://www.fem.unicamp.br/~jannuzzi/PlanejamentoIntegradodeRecursos.htm

[2] Outros recursos energéticos distribuídos são a geração distribuída, o gerenciamento da demanda e o armazenamento de energia. Para maiores informações, vide a publicação “Recursos Energéticos Distribuídos”, da FGV Energia, de maio de 2016, disponível neste link:  http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/handle/10438/16628 (acesso em 18 de agosto de 2017).