Escoamento de produção brasileira precisa ser pensado em rede

Impactos sociais e ambientais devem ser levados em conta no planejamento de logística na Amazônia Legal

O panorama do transporte de mercadorias na Amazônia Legal brasileira passou por significativas mudanças na última década. A consolidação dos grãos, milho e soja, como principais produtos de exportação escoados pelos portos da região do Arco Norte é uma das mais relevantes, o que faz com que seja necessário promover mais debates qualificados sobre o escoamento dessa produção. O assunto foi tema do oitavo webinário do ciclo WebGTInfra, realizado pelo GT Infra e pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) nesta quarta-feira (16/12), via Zoom.

“Estamos falando de quase 35 mil toneladas embarcadas”, observou o diretor-presidente do IEMA, André Luis Ferreira, que apresentou os portos do Arco Norte, destacando as especificidades e principais funções de cada um e mostrando o crescimento dos grãos entre os produtos que saem de seus seis portos. Numa comparação do Arco Norte com outros dos principais portos exportadores de grãos do Brasil, como Santos e Paranaguá, a participação relativa dos pontos de escoamento da região, especialmente nos últimos quatro anos, só cresce.

Voltado para o público interno do GT, as apresentações do webinário destacaram informações técnicas sobre o fluxo atual de mercadorias em rodovias, ferrovias e portos da região. “Hoje, a Amazônia Legal responde por 36% da produção de grãos do Brasil como um todo”, informou o analista de projetos do órgão, Marcelo dos Santos Cremer. Ele lembrou que, segundo projeções do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), a maioria das microrregiões da floresta vai experimentar um crescimento significativo na produção de grãos até 2035. “Tudo isso dialoga muito com o conjunto de obras no pipeline do governo federal, apresentadas no primeiro webinário desta série”, lembrou.

Mas, será que é dessa infraestrutura que a Amazônia precisa? Para os especialistas do Iema, é necessário pensar em cenários alternativos para a logística na região, com outras opções para o escoamento de mercadorias. Para isso, os projetos de infraestrutura precisam ser olhados como uma rede e não isolados, destacou o diretor-presidente do IEMA. “Senão a gente perde a oportunidade de discutir a pertinência de determinadas obras e subir a régua para pensar em outras alternativas”, explicou André. “Precisamos pensar em uma rede e em alternativas para ela que tragam melhores custos sociais e ambientais e isso precisa ser debatido com a sociedade. Hoje a gente não tem isso”, lamentou.

“Nós não temos um planejamento de transportes que tenha uma lógica e siga uma base técnica”, avaliou o consultor e ex-diretor geral da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e ex-presidente da Empresa de Planejamento e Logística (EPL), Bernardo Figueiredo. Para ele, como o governo não regula adequadamente o transporte, propiciando um ambiente competitivo, as empresas fazem isso. Por isso, muitas ideias, concebidas para atender a esses interesses, acabam virando projetos de governo. “A Ferrogrão é um projeto feito pelas trades para criar uma alternativa para pressionar a Rumo a baixar as tarifas. É um jogo político”, explicou. “Ninguém no mercado acredita que ela seja um projeto que fica de pé”.

Foto: Pixabay

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