Pandemia precisa ser oportunidade para construir política de saúde na Amazônia

Especialistas ressaltam urgência de investimento em políticas sociais na região

A saúde precisa estar no centro do debate para o desenvolvimento regional e a pandemia evidenciou o abismo infraestrutural da Amazônia em relação às outras do país. No Amazonas, 1º estado do país a colapsar e com número de casos crescente, o desafio da saúde ainda maior e discutir as causas e saídas para o problema foi o foco do debate no webinar “Sem social não tem ambiental: Saúde, Saneamento e as Políticas Sociais para o Desenvolvimento Regional”, realizado pelo GT Infraestrutura e parceiros, e moderado pela cantora e ativista do Tapajós,Cristina Caetano, no dia 2 de setembro.

“Eu sempre disse que o apocalipse contemporâneo seria a pandemia, porque estamos gerando isso”, afirmou Eugênio Scannavino, que é médico e fundador do Projeto Saúde e Alegria. Segundo ele, a própria pandemia é consequência da forma como criamos animais e utilizamos agrotóxicos, por exemplo. “Nós estamos brincando de deus e de industrializar a natureza uma maneira arrogante e prepotente, que a gente chama de desenvolvimento”. Ele lembrou que existem outras alternativas de produção, como a agrofloresta, que respeita a natureza em seus processos, e que, neste momento, temos um alerta para olhar para o modelo de desenvolvimento que queremos. “Foi preciso uma pandemia para que as pessoas descobrissem que saúde é floresta porque sem saúde não tem floresta”, afirmou.

O professor sênior da Faculdade de Medicina da USP, Marcos Boulos, também ressaltou que as pandemias não vêm do nada, mas da natureza e da forma como nos relacionamos com ela. Ele explicou sobre o comportamento do vírus e criticou o fato de o isolamento no Brasil não ter sido feito de maneira adequada. “O lockdown era fundamental para controlarmos a epidemia, o que não aconteceu, prolongando o problema.” O especialista, que trabalha na Amazônia desde a década de 70, manifestou a sua preocupação com a doença se espalhando para o interior da floresta e lembrou que o problema precisa ser olhado pelos governos com mais atenção.

Soluções precisam olhar para as diferenças
Eugênio Scannavino destacou que quando falamos de Amazônia precisamos olhar para as especificidades da região. “Em algumas cidades, a prefeitura disponibilizou exame drive thru, mas as pessoas não têm carro”, exemplificou. Ele contou que, como estratégias para minimizar o impacto da pandemia na região, o Saúde e Alegria mobilizou costureiras para fazer máscaras e conseguiu recursos para que o barco hospital, que atende no Rio Tapajós, prestasse atendimento aos infectados pelo Covid-19. Além disso, o projeto tem apoiado os profissionais da linha de frente, distribuindo kits de higiene e proteção familiar em larga escala, para evitar que mais pessoas sejam contaminadas. Para Eugênio, a estratégia agora precisa ser pensar no pós-pandemia, em condições estruturantes e institucionalizadas de saúde de maneira permanente.

Marcos Boulos explicou que a economia também fica doente se a gente não investe em saúde. “A saúde é fundamental e tem que ser vista como tal porque pessoas precisam estar bem para tocar projetos”. O especialista também destacou que não devemos depositar as nossas expectativas somente na vacina, porque nenhuma vacina para vírus respiratório resolve o problema totalmente. “É necessário estabelecer uma política organizada para melhorar a assistência em lugares como a região do Tapajós, aparelhando os serviços de saúde”, concluiu.

O debate completo pode ser acessado no canal do GT Infraestrutura no Youtube.

Ciclo WebGTInfra

O é o segundo para o público do Ciclo WebGTInfra, promovido pelo GT Infraestrutura e parceiros, para promover reflexões sobre sustentabilidade tendo sempre a infraestrutura como norte. A intenção é que os encontros sempre tratem do assunto priorizando a visão inclusiva das comunidades e populações da Amazônia.

Foto: Saúde e Alegria

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