No ar: Antonia Melo fala de impacto de grandes obras na região de Altamira

Liderança do Movimento Xingu Vivo fala de transtornos causados por Belo Monte e responde qual é a infraestrutura que a região realmente precisa No nono episódio do podcast Infraestrutura Sustentável, Sérgio Guimarães, recebe Antonia Melo, liderança do Movimento Xingu Vivo para Sempre para comentar os impactos das grandes obras na região de Altamira, especialmente a destruição que Belo Monte causou e ainda causa. Agora a hidrelétrica ameaça secar a região da Volta Grande do Xingu. Saúde, educação e investimento na produção estão entre as prioridades elencadas por ela. Precisamos ouvir quem vive na Amazônia antes de pensar em investimentos por lá. Que tal começar ouvindo esse episódio? Ele está disponível no Spotify e aqui no site.  

As cidades da Amazônia podem ajudar a resolver os desafios da floresta

As áreas urbanas precisam ser pensadas para prestar bons serviços e promover desenvolvimento sustentável e alinhado com o perfil do território Quando falamos em preservação da Amazônia, nossa mente vai no automático para a floresta, os rios, comunidades ribeirinhas. Mas, você já parou para pensar no papel das cidades e de suas populações para conseguirmos, de fato, proteger nossas áreas naturais? Precisamos lembrar que, assim como no restante do país, a maior parte da população da região Norte vive nas cidades: Belém tem 1,5 milhão de habitantes e Manaus, mais de 2 milhões. Tudo está interligado e as organizações que trabalham com o assunto sabem que sem olhar o desafio social das populações urbanas, não se resolve as dificuldades ambientais da região. As cidades, na medida em que se desenvolvem, passam a interferir ainda mais no desenvolvimento socioeconômico de suas regiões, pois demandam mais recursos naturais, insumos das zonas rurais e, ao mesmo tempo, absorvem uma população rural migrante em busca de educação, saúde e, às vezes, de emprego. Esse fluxo entre pessoas, serviços e produtos acentua os problemas que a cidade já tinha, como mobilidade urbana, saneamento básico e moradia. “Com o inchaço populacional das cidades amazônicas, esses problemas ganham uma outra importância na região e na visão de sustentabilidade do território”, explica Fabiano Silva, coordenador da Fundação Vitória Amazônica (FVA), organização que atua na região há mais de 30 anos. O coordenador da FVA explica que a forma como essas cidades se desenvolvem tem tudo a ver com a floresta e o desenvolvimento urbano precisa ser pensado de forma com que esses centros urbanos sejam promotores de serviços e produtos efetivamente sustentáveis e alinhados com o perfil do território. Os grandes projetos, como estradas ou linhas de transmissão das hidrelétricas, conectam cidades. No entanto, quase nunca beneficiam os moradores desses municípios, gerando mais prejuízos do que ganhos, como aconteceu com a região de Altamira (PA), com a construção de Belo Monte. A população viu explodir o valor imobiliário e o custo de vida, além do aumento da pressão sobre os sistemas de saneamento e saúde pública. É o que o GT Infraestrutura, rede de mais de 40 organizações socioambientais, tem chamado de “infraestrutura na Amazônia e não para a Amazônia”. O que pode ser feito? Pensar as cidades como projetos de infraestrutura, de maneira planejada, com função e objetivos, é um começo, segundo Fabiano Silva. Além disso, o perfil do território deve ser levado em conta na hora de pensar esses projetos. “Cidades da Amazônia precisam ser pensadas de forma diferente, tanto na sua composição urbanística, mas também na sua função terriotorial”, explica. Se uma cidade tem potencial turístico, madeireiro ou pesqueiro, é importante que seus equipamentos urbanos e de logística sejam pensados com base nisso. Esse é o assunto do oitavo episódio do podcast do GT Infra. Vale a escuta! Foto: A cidade de Belém tem 1,5 milhão de habitantes. A conservação da floresta que a cerca depende das soluções urbanas (Alexandre Mansur/Reprodução) Esse texto foi escrito por Angélica Queiroz e Alexandre Mansur e publicado, originalmente, na coluna Ideias Renováveis, da Revista Exame.

Covid, enchentes e refugiados: o drama do estado do Acre

“A farra do desmatamento sem limites está encontrando no Clima um juiz que sabe contar árvores e que não esquece nem perdoa.” (Antonio Donato Nobre – Futuro Climático da Amazônia) por Sérgio Guimarães* No verão de 2021 o Acre vivencia uma situação dramática, sofre com três crises simultâneas: Covid-19, o estado atravessa seu momento mais crítico em relação à pandemia, com explosão no número de pessoas infectadas e mortas pela doença; enchentes, com milhares de desabrigados, cuidar dos contaminados se tornou ainda mais difícil, garantir alimento e água potável um desafio; surto de dengue, resultado do aumento das chuvas e inundações, nos dois primeiros meses do ano, mais de 8 mil pessoas já foram infectadas. Isso sem falar na crise migratória de pessoas que tentam deixar o país pela fronteira com o Peru, sendo impedidas pelo país vizinho. Verão de cheias históricas O Acre sofre uma cheia histórica que em fevereiro deixou mais de 130 mil pessoas desabrigadas, cerca de 15% da população do estado, além de contribuir para ampliar as outras crises. O problema atingiu vários grupos indígenas e ribeirinhos, que perderam suas casas e boa parte de suas plantações, aumentando a vulnerabilidade social já vivida por essas comunidades. Em Cruzeiro do Sul, segunda maior cidade do estado, o rio Juruá atingiu em 2021 o maior nível histórico, impactando 33 mil dos seus 89 mil habitantes. Sena Madureira, a terceira maior cidade acreana, teve 80% de seu perímetro urbano coberto pelas águas do rio Iaco, afluente do Purus. Mais de 27 mil (cerca de 60%) dos 46 mil habitantes foram atingidos. O estado decretou estado de calamidade pública, após a cheia dos rios Acre, Juruá, Envira, Iaco e Purus. Tão grave é a situação, que uma rede de solidariedade foi formada no Brasil, liderada por instituições e personalidades para arrecadar recursos e apoiar a população atingida. Isak Kui, liderança do povo Huni Kuī, o mais numeroso povo indígena do Acre, com aproximadamente 22 mil pessoas e um dos mais afetados, diz que é a maior a enchente do Rio Envira, no município de Feijó. “Diversas aldeias foram afetadas, principalmente nas produções de banana, macaxeira, milho, amendoim. Todas essas plantações foram cobertas pela água e tudo foi perdido. Nem os mais antigos viram isso”. Famílias com crianças vivendo em batelão (barcos de madeira) ficaram até 10 dias sem beber água limpa, expostos a diversas doenças de contaminação hídrica. De longe, é imensamente difícil dimensionar os prejuízos, das pessoas, do estado e da sociedade; mais ainda, imaginar o sofrimento de centenas de milhares de pessoas diante de situações que têm se tornado cada vez mais frequentes e extremas, não só na Amazônia, mas em diversas partes do Brasil e do mundo. Situações que são produto das mudanças no clima. Efeitos da mudança climática Ciclos de cheias e secas são normais na Amazônia. O que chama a atenção é a frequência e a intensidade cada vez maior que estão acontecendo. Nas duas primeiras décadas deste século, a Amazônia, que tem forte conexão com o clima global, tem sofrido frequentes eventos climáticos extremos. Quando não são as grandes inundações, são as secas severas que passam a ocorrer com mais intensidade e num espaço de tempo mais curto. O ecólogo Foster Brown, da Universidade Federal do Acre (UFAC), diz que a tendência é de que “perturbações climáticas” se intensifiquem nos próximos anos. As mudanças do clima na região, afirma ele, não são um fenômeno futuro, mas são vividas já agora. “O que você pode dizer é que a chance de uma inundação destas aumentou em função de mudanças climáticas. Teremos chuvas mais fortes, secas mais fortes”. Esse fato é bem conhecido da ciência climática. “O que a mudança climática faz – e fará cada vez mais no futuro, é exacerbar e aumentar a frequência dos fenômenos climáticos extremos”, afirma Carlos Nobre, pesquisador do INPE e INPA. Por sua vez, recente relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) e o relatório do clima do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) para o Brasil preveem que “Eventos climáticos extremos, como chuvas intensas, vendavais, grandes secas devem ocorrer com mais frequência, intensidade e duração nos próximos anos em função das mudanças climáticas”. Desmatamento Também não há dúvida entre os pesquisadores que o desmatamento desenfreado na Amazônia é o principal responsável pelas “perturbações climáticas” que intensificam os extremos de secas e cheias na região. O Brasil, depois de reduzir e, cerca de 83% seu desmatamento entre os anos de 2004 e 2012 (de 27.8 mil Km2, para 4,6 mil km2), fruto de esforço conjunto de governos e sociedade, vê o desmatamento disparar novamente nos dois anos recentes, e chegar novamente na casa dos 10 mil km2. As consequências são várias e os prejuízos incalculáveis, incluindo perdas de investimentos e danos na economia do país. Portanto, é preciso retomar com urgência as ações bem-sucedidas – e a sociedade tem um papel importante nisso – para que o país retome o rumo da redução do desmatamento, das suas emissões de efeito estufa e, consequentemente, dos prejuízos dos prejuízos econômicos e sociais, favorecendo atividades econômicas compatíveis com a floresta e as comunidades que nela habitam. Como sabemos o clima não é uma coisa que só depende do tempo e da natureza. A atividade humana tem influência decisiva e precisamos olhar e agir sobre isso com urgência. Isak Kui não tem dúvida disso: ”o povo indígena vê que se a gente começa a destruir a natureza, um dia, futuramente, ela vai cobrar. Fica dessa maneira pela destruição dos próprios homens”. * Sérgio Guimarães é Diretor Executivo do GT Infraestrutura. O GT é uma rede com mais de 40 organizações que atua para garantir um desenvolvimento mais sustentável para o Brasil, tendo a preservação da Amazônia como um dos focos principais. Foto: cheia dos rios no Acre, por Marcos Vicentini/Fotos Públicas Este artigo foi publicado, originalmente, na coluna O Clima Que Queremos, no Climatempo.

No ar: oitavo episódio debate papel das cidades na Amazônia

Fabiano Silva, da FVA, explica como desenvolvimento urbano influencia na dinâmica da floresta “Sem o social não se resolve o ambiental”. Na região Norte, assim como no restante do país, a maioria da população vive nas áreas urbanas e, por isso, as cidades têm papel estratégico na promoção do desenvolvimento sustentável. Esse é o assunto do oitavo episódio do podcast Infraestrutura Sustentável, que convidou o coordenador da Fundação Vitória Amazônica (FVA), Fabiano Silva, para debater o assunto. A organização atua na região há mais de 30 anos e tem muito a contribuir para esse debate. O episódio já está disponível no Spotify do GT Infra. Boa escuta.    

MPF ressalta para MPTCU que proposta da Ferrogrão (MT/PA) viola direitos e inviabiliza análise socioeconômica

Direito de indígenas à consulta prévia deve ser respeitado desde a fase de planejamento do projeto, destaca o MPF O Ministério Público Federal (MPF) enviou ofício nesta sexta-feira (5) ao Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU), em Brasília (DF), com informações técnicas sobre ilegalidades cometidas na proposta de projeto da ferrovia Ferrogrão (MT/PA). O documento aponta uma série de danos provocados por essas ilegalidades, tanto para a garantia de direitos fundamentais quanto para a verificação da viabilidade econômica, social, ambiental e cultural do projeto da ferrovia. A desconsideração do direito de indígenas a consulta e consentimento livre, prévio e informado desde a fase inicial de planejamento provoca subdimensionamento dos custos do projeto, alerta o MPF. Essa violação de direitos também impede a correta avaliação socioeconômica do investimento, por ignorar critérios não monetários que são desconhecidos pelos tomadores de decisões governamentais. O envio desses dados e análises busca subsidiar o MPTCU no processo aberto no ano passado pelo TCU a partir de representação do MPF, de associações indígenas e de outras organizações sociais em que é pedida a suspensão preventiva do processo de desestatização e a proibição da licitação da ferrovia, projetada para cortar os estados do Mato Grosso e do Pará, entre os municípios de Sinop e Itaituba, com potencial impacto sobre 48 territórios de povos indígenas. Segundo o MPF, o respeito ao direito à consulta e consentimento livre, prévio e informado foi prometido aos indígenas pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), mas nem a primeira consulta foi feita. Agora, na fase de tramitação no TCU do processo administrativo de elaboração de plano de outorga da concessão da estrada de ferro, a agência apresenta argumentos contraditórios e que confundem o direito à consulta prévia com outros direitos, alerta o MPF. O MPF reforça que o que foi requerido na representação foi a devolução do processo pelo TCU, para que a ANTT finalize a etapa de participação social, desta vez dando a oportunidade aos povos indígenas e comunidades tradicionais de se manifestarem sobre as condições e sobre a viabilidade ou inviabilidade do projeto de investimento por meio da realização da consulta livre, prévia e informada, como previsto em lei para garantir a participação efetiva desses povos nas decisões administrativas que afetam seus direitos e territórios. Respostas imprescindíveis – Ao MPTCU o MPF informou que considera imprescindível que o processo de análise da representação ao TCU responda as seguintes questões, motivadas por posicionamentos defendidos pela ANTT e acolhidos pela unidade técnica do tribunal: 1 – As decisões e medidas administrativas tomadas pela ANTT previamente ao licenciamento ambiental são dispensadas da obrigação de observar o direito de Consulta e Consentimento Livre, Prévio e Informado dos Povos Indígenas e Tradicionais garantido pela Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT)? 2 – Não tem validade a promessa feita por escrito pela ANTT às lideranças do povo Kayapó na audiência pública 14/2017 (promessa de que a Consulta Livre, Prévia e Informada seria realizada ainda na fase de planejamento do projeto, previamente à apreciação pelo TCU)? 3 – A ANTT pode apresentar dois projetos diferentes para avaliação de impactos ambientais e de viabilidade econômica, conforme se diferenciam no Caderno de Meio Ambiente e no Caderno de Demanda, no que se refere à presença do terminal ferroviário intermediário em Matupá (MT)? 4 – Qual desses projetos deve ser considerado para fins da identificação dos povos indígenas impactados pela Ferrogrão? Íntegra do ofício do MPF ao MPTCU Imagem: Complexos territoriais e interceptação da ferrovia proposta – Arte: ANTT Este texto foi originalmente publicado no site do Ministério Público Federal.  

Por que falta água na Amazônia

Cerca de 47% da população da região Norte não tem acesso a água tratada. Antes de obras mirabolantes, investimentos em infraestrutura de saneamento são requisito para o desenvolvimento da região Há pelo menos um ano, todo mundo fala em lavar as mãos como o cuidado mais básico para evitar o contágio pelo novo coronavírus. No entanto, para quase 35 milhões de brasileiros o abastecimento de água tratada não é uma realidade. Além disso, os números escancaram a diferença entre as regiões. Segundo o Trata Brasil, que faz um levantamento anual, enquanto no Sudeste mais de 90% da população tem água tratada, no Norte só 57% das pessoas têm acesso a esse serviço. Se falamos de esgoto, a situação na região é ainda pior: pouco mais de 10% da população é atendida por uma rede de coleta. No Brasil, o saneamento básico é um direito assegurado pela Constituição, mas, em pleno 2021, esse ainda é um dos nossos grandes desafios. E não é só aqui. Ainda segundo o Trata Brasil, 633 milhões de pessoas no mundo continuam sem acesso a uma fonte de água potável e há 2,4 bilhões de pessoas no mundo vivendo sem saneamento adequado. Esse é um assunto tão importante que está entre os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da ONU — é o número 6 da lista. Voltando ao Brasil, a pergunta é: como pode ser possível que um país banhado por rios sofra com falta de água e esgoto? Basicamente porque, historicamente, nossos governos não investiram o suficiente na construção e manutenção de infraestruturas que garantem esse abastecimento, especialmente nas regiões mais pobres, que também não são a prioridade de investimento do setor privado. “As carências de saneamento no nosso país estão justamente onde vivem as pessoas mais pobres, nas favelas, nos morros, nas palafitas, nas periferias das grandes cidades e na área rural, que não são localidades que garantem o lucro que o setor privado almeja”, explica o secretário-executivo do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (Ondas), Edson da Silva. Ou seja, para que o desenvolvimento chegue a essas regiões, elas precisam, primeiro, ter infraestruturas básicas. O que podemos fazer para resolver o problema? Para Edson da Silva, a população que vive nas áreas mais carentes tem muito a nos ensinar sobre as soluções e o primeiro passo é ouvi-la. Além disso, ele acredita que o poder público precisa investir em um programa de revitalização dos operadores e garantir recursos perenes para essa área. Os números mostram que investir em saneamento compensa. A Organização Mundial da Saúde estima que, no Brasil, cada R$1 investido em saneamento poderia gerar uma economia de R$4 na saúde. Se falarmos em Amazônia, por exemplo, no lugar de investir em projetos milionários com alto impacto social e ambiental, fica claro que nossos governos precisam, primeiro, pensar em obras de infraestrutura que realmente melhorem a qualidade de vida de quem vive na região. Além disso, precisamos lembrar que a parte social é um pré-requisito para resolver a questão ambiental. Afinal, o investimento em infraestrutura também gera outros empregos que não sejam relacionados à destruição da floresta. Empregos esses que são pulverizados em várias localidades e não em um só lugar, como na construção de uma hidrelétrica. E muitos desses postos de trabalho são permanentes, com pessoas que vão trabalhar na manutenção da rede de saneamento e toda a cadeia do turismo, que também se torna um investimento mais interessante onde há infraestrutura básica. Esse é o assunto do sétimo episódio do podcast Infraestrutura Sustentável, que foca na Amazônia, mas também explica porque o Novo Marco Legal do Saneamento, aprovado em julho de 2020, não contribui muito para melhorar a situação. O programa pode ser ouvido no Spotify e também no site do GT Infra. “Um país só atinge o seu grau pleno de desenvolvimento quando ele não tiver mais nenhum homem, nenhuma mulher, nenhum idoso e nenhuma criança sem acesso à água e ao esgoto”, afirma Edson da Silva. Esse texto foi escrito por Alexandre Mansur e Angélica Queiroz e publicado, originalmente, na coluna Ideias Renováveis, da Revista Exame.

Como escoar a produção de soja sem destruir a Amazônia

O governo anunciou uma ferrovia de R$ 12 bilhões que cortaria o coração da Amazônia para exportar a soja do Mato Grosso. Mas existem alternativas bem melhores O governo federal anunciou que irá fazer a licitação de uma grande ferrovia cortando a floresta Amazônica. A concorrência é prometida para o primeiro trimestre de 2021. Trata-se de uma ferrovia que está projetada para percorrer quase 1.000 quilômetros entre Sinop, no Mato Grosso, até o porto de Miritituba, no rio Tapajós. Estamos falando do coração do agronegócio brasileiro e o objetivo da construção dessa linha de trem no meio da Amazônia é justamente acelerar a exportação de sua enorme safra de grãos. Mas, realizada sem os cuidados necessários, a construção da ferrovia deve acelerar o desmatamento e atingir vários territórios indígenas. Diante disso, precisamos perguntar: será que realmente precisamos dessa obra? A obra está estimada em R$ 12 bilhões. O governo federal anunciou que irá colocar no mínimo R$ 2,2 bilhões dos cofres públicos na empreitada. Uma obra desse tamanho envolve a contratação de muitas empresas, a movimentação de muito dinheiro. Sabe-se que grandes obras do tipo tradicionalmente envolvem corrupção e favorecimentos políticos. O governo federal decidiu que quer a obra. Mas ninguém viu as alternativas. Quais são as opções para escoar a produção de grãos com menor investimento inicial, menor risco, menor manutenção, menor custo social, menor prejuízo ambiental? Quando um projeto ainda está no papel, podemos avaliar se o que está sendo proposto é a melhor alternativa para o país. É a hora de pensar se esse é o caminho de menor custo. E quando falamos de custo, precisamos saber que não é são apenas as despesas com logística que entram na conta, mas também os custos ambientais e sociais. Nessa discussão também temos que considerar qual será a necessidade do transporte de grãos no futuro e quais são as alternativas existentes para levar esses grãos até os portos. Entre as rotas alternativas, uma delas permitiria levar a soja do Mato Grosso para o porto de Itaqui, no Maranhão. Além de evitar cortar o coração da floresta Amazônica, ainda teria a vantagem de conectar outros polos produtivos, inclusive o Matobipa. Há também rotas mais econômicas que aproveitam a infraestrutura já existente até o porto de Santos, permitindo melhorar o escoamento de outros produtos do país. O GT Infraestrutura, uma rede que conta com mais de 40 organizações socioambientais — entre elas World Wildlife Fund (WWF), Saúde e Alegria, Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável do Amazonas (Idesam), Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) e Greenpeace —, tem a proposta de construir, coletivamente, uma agenda de análise técnica dos aspectos socioambientais que envolvem os empreendimentos e projetos de infraestrutura em curso no Brasil. Eles têm feito várias discussões sobre o assunto e a tônica geral é que precisamos discutir rotas, não projetos específicos. “Nem sempre as grandes obras são o que a Amazônia realmente precisa”, afirma o secretário executivo da rede, Sérgio Guimarães. O Brasil tem que discutir alternativas que possam reduzir os riscos sociais e ambientais na Amazônia. Afinal, a floresta tem muito mais valor, inclusive financeiro, em pé. Por isso, a primeira coisa que precisa ser avaliada é se essa obra é mesmo necessária, comparando-a com outros projetos que já existem e têm riscos sociais e ambientais menores, uma vez que não passam no meio da Amazônia. Também devemos pensar se esse é o caminho de menor custo. “É preciso dar um passo e discutir mais do que um projeto, mas o futuro logístico do país”, afirma André Ferreira, diretor presidente do IEMA, que tem se dedicado a estudar o assunto. “A pergunta é qual é a infraestrutura que a sociedade quer, qual é a infraestrutura que ela propõe”, completa. É a hora de fazer um estudo de cenários. E o sexto episódio do podcast do GT Infraestrutura fala justamente sobre isso, com a participação do André Ferreira. Ele deixa claro que o processo de decisão precisa ser mais transparente, claro e comparar diferentes alternativas. E a sociedade precisa poder opinar sobre isso. Especialmente as comunidades que vivem nessa área e que seriam atingidas pelos transtornos e consequências de uma obra como essa. O desenvolvimento do futuro é inteligente e anda junto com a preservação ambiental. Esse texto foi escrito por Alexandre Mansur e Angélica Queiroz e publicado, originalmente, na coluna Ideias Renováveis, da Revista Exame.

No ar: água e saneamento são tema de podcast

Edson da Silva, secretário-executivo do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (Ondas) é o deste episódio do podcast No Brasil, o saneamento básico é um direito assegurado pela Constituição, mas, em pleno 2021, a falta dele, assim como da água tratada, ainda é um desafio em muitas cidades. Segundo o Trata Brasil, que faz um levantamento anual sobre água e esgoto, a região da Amazônia é a mais carente. Enquanto no Sudeste, mais de 90% da população tem água tratada, no Norte só 57% das pessoas têm acesso a esse serviço. Se falamos de esgoto, a situação é ainda pior: pouco mais de 10% da população é atendida por uma rede de coleta. No sétimo episódio do Infraestrutura Sustentável, Sérgio Guimarães conversa com o secretário-executivo do Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento (Ondas), Edson da Silva, sobre esses dois direitos que, como o nome diz, deveriam ser básicos para todos, o 6º item da lista de 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), da ONU: água potável e saneamento. Eles vem juntos porque uma coisa não anda sem a outra. O programa já está disponível no Spotify do GT Infra. Boa escuta!

Podcast discute projeto da Ferrogrão e outras alternativas para a logística no Arco Norte

Sexto episódio do podcast Infraestrutura Sustentável recebe André Ferreira, do IEMA Considerada prioritária pelo governo Jair Bolsonaro, a Ferrogrão deve percorrer quase 1.000 quilômetros entre Sinop, no Mato Grosso, até o porto de Miritituba, no rio Tapajós. O objetivo da obra é acelerar a exportação de grãos, mas esse também  é um projeto que aumenta o desmatamento e atinge vários territórios indígenas. No sexto episódio do nosso podcast, falamos do contexto em que essa obra está inserida, das consequências desse modelo de desenvolvimento e, principalmente, sobre a necessidade de pensarmos outras alternativas para o escoamento da safra na região do Arco Norte. Nosso convidado é o André Ferreira, do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA). O episódio está disponível — no Spotify ou aqui. Boa escuta!