Como deixar o país à prova de apagão
Se Brasil diversificar suas fontes renováveis de energia, investindo em eólicas e solares, teremos contas mais baratas e mais segurança Estamos vivendo uma crise hídrica grave. A Agência Nacional de Águas declarou situação crítica em pelo menos cinco estados. O problema fica mais sério porque algumas grandes hidrelétricas ficam nesse local, o que coloca o país todo em risco de apagão. A crise é provocada por uma redução nas chuvas. Como todo mundo sabe (ou deveria saber), as chuvas que caem sobre o Brasil são geradas pelas florestas. Só em maio, a destruição da cobertura vegetal – que presta o serviço insubstituível de tirar água do solo e lançar na atmosfera – foi quase do tamanho da cidade do Rio de Janeiro, segundo dados do Sistema de Alerta do Desmatamento (SAD), levantamento feito pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon). Não é a primeira vez que estamos vivendo risco de racionamento de energia. Esses episódios são agravados pelas mudanças climáticas, cada vez mais presentes.O desmatamento age duplamente: acentuando os efeitos do aquecimento global e prejudicando o regime de chuvas. A falta de água fica ainda mais grave porque o Brasil tem uma matriz energética muito dependente das hidrelétricas — mais de 60% da nossa energia vem delas. Por isso, fica ainda mais suscetível a essas alterações. Se dependemos de hidrelétricas, as árvores deveriam ser consideradas infraestrutura básica. Além de parar de destruir as florestas que geram as chuvas, outra medida importante para evitar novas crises energéticas poderia ser rever o planejamento do modelo brasileiro. É o que defendem alguns especialistas. O 13º episódio do podcast Infraestrutura Sustentável, do GT Infraestrutura, convidou Ricardo Baitelo, do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), para falar sobre a questão. Ele acredita que a atual crise poderia ter sido evitada se tivéssemos tomado decisões energéticas diferentes no passado, com uma diversificação maior da matriz energética. “Quando vivemos um momento emergencial, a margem de tomada de decisões é muito menor. A solução tem que se iniciar antes, para que a gente possa colher os frutos a tempo”, afirma Baitelo. Uma das saídas, segundo ele, é investir em outras fontes ambientalmente favoráveis e socialmente justas. E o Brasil é um país continental privilegiado nesse sentido, com território continental que nos garante opções múltiplas de fontes renováveis. Baitelo acredita que, com um planejamento adequado, poderíamos ter uma participação maior das fontes eólica e solar, por exemplo. Além de ser mais sustentável, o investimento nesse tipo de fonte evitaria o acionamento das térmicas, que são poluentes e caras, pesando no bolso do consumidor e para agravar os problemas ambientais do planeta. “Elas podem cobrir essa lacuna de demanda em momentos emergenciais, mas não devemos fazer um planejamento baseado nelas” O Brasil precisa dar condições básicas para que as indústrias que investem em fontes renováveis diversificadas de energia, para além das hidrelétricas, continuem se desenvolvendo. Regras claras para que elas sejam competitivas e possam atender a matriz de forma crescente são algumas delas, segundo Baitelo. “Com esse caminho e com outras discussões regulatórias é possível o Brasil continuar caminhando para uma descarbonização, que é necessária. Estamos ficando para trás, mas temos condições de chegar lá também.” Este artigo foi escrito por Angélica Queiroz e Alexandre Mansur e, originalmente, publicado na coluna Ideias Renováveis, da Exame.
Em meio à crise de energia, sociedade civil, empresas, academia e órgãos públicos alertam para a necessidade de eletrodomésticos mais eficientes

Carta assinada por representantes desses setores foi enviada ao Inmetro e pede que eficiência energética seja prioridade, em particular no caso dos refrigeradores O Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) recebeu, nesta sexta-feira (25/6), uma carta pedindo uma revisão mais ambiciosa do Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE) para os refrigeradores. O documento, organizado pela Rede Kigali e assinado por mais de 100 especialistas da área e consumidores, destaca a importância de se reduzir o consumo de energia das geladeiras – um dos eletrodomésticos que mais pesa na conta de luz dos brasileiros. Esse aspecto torna-se ainda mais relevante no atual contexto de crise energética. O PBE é uma das principais políticas do país na área de eficiência energética, direcionando a indústria para a inovação e orientando o consumidor sobre o quanto um eletrodoméstico gasta. Mas, no caso dos refrigeradores, não houve revisão das regras do PBE desde 2006, de modo que hoje as geladeiras brasileiras estão entre as mais ineficientes do mundo. Nos próximos dias, o Inmetro deve publicar o resultado de uma consulta pública feita justamente para atualizar essas regras. O problema é que, diferentemente do necessário, a proposta apresentada pelo órgão não é suficiente para compensar o atraso na velocidade possível e necessária. “Não podemos esperar mais 10 anos para que a legislação exija eficiência real em um dos principais consumidores de energia nas residências, que fica ligado 24 horas por dia. Pedimos uma aceleração no período de transição, caso contrário a meta de 2031 já nascerá ultrapassada”, alertam os especialistas na carta. As organizações da sociedade civil, empresas, academia e órgãos públicos unidos nessa iniciativa inédita alertam que não temos mais motivos para esperar: a eficiência energética tem de ser uma das saídas-chave para a crise no setor de energia e também para evitar outras. Nesse sentido, a carta mostra casos de outros países, como Austrália e Estados Unidos, onde a política de etiquetagem ajudou na redução do consumo de eletricidade dos refrigeradores, queda dos preços e aumento do volume. Destaca ainda que a indústria brasileira já tem tecnologia para garantir aparelhos modernos e eficientes para nossos consumidores. Além de cobrar uma revisão na proposta para os refrigeradores, a carta pede que o Inmetro se planeje para que a regulação brasileira acompanhe as melhores práticas internacionais e ajude a conscientizar o consumidor sobre a importância da eficiência energética, que faz bem para o bolso dele, para o meio ambiente e para as empresas. “Se o PBE para refrigeradores tivesse sido revisto para que em 2020 a classe ‘A’ fosse 10% mais eficiente do que é, os brasileiros teriam gastado R$ 1,3 bilhão a menos em suas contas naquele ano, o que equivale a cerca de 46 milhões de doses importadas da vacina da AstraZeneca contra a Covid-19 ou uma economia de eletricidade que daria para abastecer 1 milhão de residências por um ano”, comenta Rodolfo Gomes, diretor-executivo do International Energy Initiative – IEI Brasil, uma das organizações que compõem a da Rede Kigali, que organizou a carta. Veja a carta na íntegra e saiba quem assinou. Sobre a Rede Kigali A Rede Kigali é composta pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), International Energy Initiative – IEI Brasil, CLASP, consultoria Mitsidi, Projeto Hospitais Saudáveis (PHS) e rede de jovens Engajamundo. Promove ações ligadas à melhoria da eficiência energética de aparelhos como ares-condicionados e refrigeradores, como forma de reduzir o consumo de energia de fontes poluentes, responsável por emissões de gases de efeito estufa que causam o aquecimento global. Também atua na redução do uso de fluidos refrigerantes com alto potencial de aquecimento global nesses equipamentos, objeto da Emenda de Kigali. Foto: Entrega de geladeiras em Olinda (PE): eletrodmésticos mais eficientes ajudariam brasileiros a economizarem nas contas de luz (Passarinho/Prefeitura de Olinda/Divulgação)
O Brasil se distancia cada vez mais da infraestrutura sustentável
por Ricardo Abramovay A infraestrutura das sociedades contemporâneas será cada vez menos a ossatura e cada vez mais a inteligência do crescimento econômico. Não se trata de oferecer, de forma genérica, os bens públicos para que o setor privado possa expandir suas iniciativas, mas sim de moldar estas iniciativas em direção a finalidades que envolvem os dois maiores desafios contemporâneos: o avanço da crise climática e o aprofundamento das desigualdades. Que isso atinja a própria concepção do que significam e quais devem ser as infraestruturas que estão desenhando nosso destino representa imenso avanço democrático, do qual o Brasil está se distanciando. O que está em jogo não é só o fato de que a infraestrutura dá lugar a elefantes brancos e corrupção em várias partes do mundo. Megaprojetos padecem costumeiramente de um viés otimista, que, como mostra o trabalho de pesquisadores da UFMG e da USP para o Tribunal de Contas da União, faz com que seus proponentes inflem seus benefícios e subestimem seus custos. O psicólogo Daniel Kahneman, prêmio Nobel de Economia, chamou de falácia do planejamento a tendência de os responsáveis pelos megaprojetos adotarem os pontos de vista de atores interessados em sua realização sem uma real avaliação das vantagens das alternativas. Pesquisadores da Universidade de Oxford apoiam-se amplamente no trabalho de Kahneman para explicar que os orçamentos inicialmente previstos para a construção de hidrelétricas, por exemplo, não chegam, na maior parte dos casos examinados, à metade de seus custos reais. Mas as mudanças que atingem o próprio conceito contemporâneo de infraestrutura vão muito além da exigência óbvia de que elas não abram caminho à corrupção, a obras abandonadas e a custos exorbitantes. Duas transformações fundamentais estão em curso. A primeira dela materializa-se nas discussões que têm lugar hoje na sociedade norte-americana em torno da economia do cuidado. Como resultado do trabalho de inúmeras organizações da sociedade civil, a economia do cuidado não se limita a promover transferência de renda para populações pobres e para os que foram mais duramente atingidos pela pandemia. Esta transferência é importante e teve, nos EUA, como foco principal, as famílias com crianças — o que deve resultar na impressionante redução da pobreza infantil norte-americana pela metade em 2021. Mas o plano Biden procura erguer formas duráveis para cuidar melhor das crianças, dos idosos e dos portadores de deficiência. Isso significa ampliar os investimentos em creches e escolas, o que permite que as mulheres voltem ao mercado de trabalho, já que boa parte delas haviam sido obrigadas a abandonar seus cargos função da pandemia. O importante é que o cuidado com as pessoas é uma responsabilidade do poder público e não apenas das famílias e das comunidades locais. É o Estado que oferece as condições materiais e a formação de profissionais para que os idosos e os portadores de necessidades especiais tenham vida digna e, sobretudo, para que as crianças recebam atenção e ensino de qualidade, por profissionais preparados para isso. No plano Biden, estes itens não são tratados como gastos, mas como investimentos em infraestrutura. Eles são tão importantes como as rodovias, os aeroportos ou a energia. Ao mesmo tempo, eles têm a intenção explícita de se opor à discriminação racial e de gênero que marca tão fortemente o mercado de trabalho. Não é à toa que tratar os investimentos no cuidado com as pessoas como parte da infraestrutura vem junto com a iniciativa de criar um Conselho de Política de Gênero, ligado à Casa Branca, para promover a igualdade nas políticas externas e internacionais. A segunda transformação no conceito de infraestrutura tem por eixo central mudar a relação entre sociedade e natureza. Diversas organizações multilaterais (o G 20, o Banco Interamericano, a Comissão Global para a Economia e o Clima, entre outras) convergem para a seguinte constatação: o mundo deve investir, entre 2015 e 2030, algo como US$ 90 trilhões em infraestrutura. A maior parte deste investimento será nos países em desenvolvimento, onde se encontram as mais importantes necessidades não atendidas em transportes, energia, comunicações, saúde e educação. Pelos padrões até aqui predominantes, estes investimentos têm a vocação de agravar a crise climática e a erosão da biodiversidade. Esta constatação é especialmente importante para a Amazônia. Uma análise de 75 projetos rodoviários na região, totalizando 12 mil quilômetros, mostra que todos têm impactos negativos sobre as áreas florestais. É à beira das rodovias que se concentra 80% do desmatamento na Amazônia. E mesmo que não se considerem os impactos sobre a biodiversidade, 45% destes projetos são economicamente inconsistentes, confirmando o viés otimista estudado por Kahneman. Os trabalhos recentes do World Resources Institute e do Climate Policy Initiative corroboram estes resultados: a ideia de que as infraestruturas convencionais materializadas em megaprojetos criam empregos durante sua construção e estimulam a iniciativa privada depois de prontas — contribuindo, portanto, para o crescimento econômico — é criticada globalmente, e mostra-se particularmente perversa na Amazônia. Os resultados desta forma de conceber e implantar a infraestrutura têm sido a destruição florestal, a exploração predatória de recursos minerais e o empobrecimento da região (e da maioria das pessoas que ali vivem). A infraestrutura só vai se converter em inteligência — mais que em ossatura — do crescimento econômico se sua definição passar por um questionamento sério sobre quais são os valores ético-normativos em que se apoiam os projetos de infraestrutura. A resposta das organizações multilaterais e dos governos que estão reformulando a visão contemporânea sobre infraestrutura pode ser resumida numa proposição: o valor da infraestrutura do Século 21 está em sua capacidade de regenerar os tecidos socioambientais que, até aqui, as formas convencionais e tão frequentemente predatórias de crescimento econômico têm destruído. Orientar-se por este valor não significa apenas empenhar-se em zerar imediatamente o desmatamento (na Amazônia e no Cerrado), interromper o ataque aos povos indígenas e desmantelar a cadeia da criminalidade, da grilagem, do garimpo ilegal e das milícias hoje tão fortes na Amazônia. Significa, antes de tudo, criar mecanismos para que a infraestrutura na Amazônia seja, mais que um meio para o trânsito de commodities
O bêbado e o comunista

Por Caetano Scannavino* – A Terra é plana! – chega o bebum. – Que Terra plana que nada! A Terra é uma pirâmide! – retruca o comunista. – Pirâmide? Você tá de porre! Qualquer um sabe que a Terra é redonda… – diz o bebum, já se afastando. Não adianta subestimar, resistir ou argumentar com o bêbado chato na festa. A única forma de se livrar dele é se fazer ainda mais bebum. De dose dupla. Em meio à terra arrasada ao longo do seu mandato, os que subestimam uma eventual reeleição de Bolsonaro só fazem bem a ele. Tampouco pode-se dizer que apenas uma frente ampla das oposições – os tais comunistas – bastaria para evitar uma recondução ao cargo por mais quatro anos. É preciso deixar o rei nu. Bolsonaro soube como ninguém se apropriar e manter o popularíssimo avatar antissistema, se aproveitando de uma sociedade com ojeriza do “mais do mesmo” da política e dos muitos que prometeram mudar o sistema e acabaram mudados por ele. Vestido para matar, Bolsonaro veio para destruir, deixando para terceiros a tarefa do que colocar no lugar. Enquanto esgarça as instituições, lança como isca suas pérolas sem compromisso com a verdade ou o bom senso. As oposições mordem, sem que consigam ir além de resistir e reduzir danos. E assim vai levando, com aquele ora mais ora menos terço de apoiadores – o suficiente tanto para desencorajar movimentos por impeachment, como para deixá-lo em 2022 com um pé no 2º turno – quando então se vangloriará do provável viés de “despiora” em relação à economia e à pandemia, após o fundo do poço alcançado neste ano. Ainda que estes tempos nos tragam dificuldades de respirar, é preciso encontrar o oxigênio que nos foi cortado para inspirar mais do que união pela democracia – o que nos levaria a propor apenas a volta do que era. As oposições que se dizem progressistas devem ser capazes de despir Bolsonaro desse avatar anti-establishment que opera milagres ao vender ares de inovação e mudanças a partir de ideias retrógradas e reacionárias, vindas de um congressista com quase 30 anos de baixo-clero, boa parte dele no PP de Paulo Maluf. É hora de dobrar a aposta, como quando encontramos o bebum chato na festa. Não será tentando contê-lo que vamos espantá-lo. Teremos que extrapolar e ser mais louco que ele. Ser de fato progressistas. Como antítese a Bolsonaro, tem-se aí a oportunidade para acelerar a construção do verdadeiramente inovador e revolucionário, ousando-se criar um novo establishment no lugar da terra arrasada. Em vez de resistir ao chacoalhão das estruturas que criticávamos, temos a chance de reorganizá-las sob novos impulsos criadores. A crise pandêmica abriu ainda mais esta janela para adiantar o futuro e começar a pautá-lo desde já. No campo trabalhista, por exemplo, ao invés de pararmos no tempo acomodados apenas na defesa da CLT de Vargas, os progressistas devem também chamar respostas para a inevitável substituição de vagas de trabalho por máquinas. Que tal trazer para a agenda o que já vem sendo debatido em países europeus, como a redução da jornada para 32 horas, com mais gente trabalhando, por menos tempo? Por sinal, uma medida cujos estudos apontam melhoras na mobilidade urbana, no clima, na conta de luz e na saúde, com a diminuição das faltas, sem comprometimento da produtividade. O ajuste dos relógios ainda alavancaria a economia do lazer e da cultura, privilegiando o tempo para usufruir desses serviços ao invés de incentivar o consumismo material num planeta que não tem tido tempo – na correria que lhe impomos – para renovar seus recursos. Os experimentos de redução da jornada de trabalho também se articulam com mecanismos de renda básica, associados a saídas inovadoras no campo previdenciário, com a expectativa de vida crescente. Que tal um Bolsa Família 2.0, mais robusto, numa mobilização nacional pela erradicação da extrema pobreza que garanta o mínimo para todos? A partir daí podemos criar uma competição mais justa no mundo do trabalho. Que tal discutirmos o entendimento de empresas como entes de interesse público? A partir de exemplos como o Sistema B de “benefício”, ou o ESG, sigla em inglês para “ambiental, social, governança”? O debate nacional precisa incorporar esses pilares na análise dos investimentos, indo além das tradicionais métricas econômico-financeiras. Ao invés de reprimir, que tal alavancar as iniciativas de economia compartilhada das favelas e comunidades rurais? Precisamos discutir as políticas públicas do futuro, que por vezes nascem nas margens e nas periferias, já denunciando o que não funciona no centro do sistema. Reunir essas inteligências também passa por fortalecer a participação social, os conselhos, os mecanismos de democracia direta, de proatividade cidadã na construção de políticas mais apropriadas às realidades dos que mais precisam delas. No país líder em biodiversidade, em plena emergência climática global, a deixa está dada para contrapor um governo antiambientalista. Políticas de desmatamento zero, eficiência agrícola e polos industriais de biotecnologia e bioeconomia não só têm o potencial de movimentar trilhões de dólares para o país, como também pode nos posicionar na liderança da vanguarda mundial dos novos paradigmas de desenvolvimento. Para sermos de fato progressistas, é preciso assumirmos a construção da agenda do futuro, que vai muito além dos exemplos acima e exige uma disposição imediata de ser mais louco que o bêbado, pautar ao invés de ser pautado e, assim, libertar-se da condição de refém de debates que param o país discutindo cloroquina ou voto impresso. Se a melhor forma de prever o amanhã é construí-lo, essa é também a melhor estratégia para combater o exterminador do futuro: com mais doses de futuro. *Caetano Scannavino é empreendedor social, coordenador da ONG Projeto Saúde & Alegria, com atuação na Amazônia. Foto: Ponta do Icuxi, rio Arapiuns, em Santarém (PA) /Caetano Scannavino Esse artigo foi publicado, originalmente, no jornal Folha de S. Paulo.
Por que iremos prosperar se respeitarmos os limites do Planeta
Devemos ouvir a ciência, que não nos oferece só previsões catastróficas, mas também as soluções para os problemas que causamos Por Sérgio Guimarães* Definir e ensinar a respeitar limites, nos dizem a psicologia e a pedagogia, é uma das atitudes mais importantes para criar uma criança segura e feliz. Fundamental para propiciar o crescimento emocional e o amadurecimento de todo ser humano. Por outro lado, um adulto que não aprendeu a respeitar limites, carrega e cria dificuldades para si e para os outros durante toda a sua vida. Quando isso se torna uma característica de uma sociedade, os problemas se multiplicam. Cientistas de todo o mundo alertam há décadas que precisamos mudar a forma como nos relacionamos com o planeta. Nos últimos anos, muito tem se falado sobre os tipping points, ou pontos de não retorno, limites que não podem ser ultrapassados sob pena de graves consequências. É sobre isso o mais novo documentário de David Attenborough, “Breaking Boundaries” ou, em bom português: “Quebrando os Limites”. O filme explora os nove limiares planetários apontados pelo trabalho do professor sueco Johan Rockstrom, que explica em detalhes por que a vida na Terra está seriamente ameaçada se não mudarmos a forma como nos relacionamos com os recursos naturais. É para ontem! A Amazônia, maior floresta tropical do globo, claro, tem destaque no filme, como não poderia deixar de ter. Esse é um bioma fundamental para o equilíbrio climático regional e global e, com o aumento do desmatamento, grilagem e queimadas, está seriamente ameaçado. Todo mundo sabe disso. E, mesmo assim, cada nova pesquisa na região nos mostra números cada vez mais alarmantes. Todos os estudiosos entrevistados no documentário deixam bem claro que não podemos mais esperar. Lideranças de vários países já entenderam isso, mas, por aqui, a mensagem parece ainda não estar clara para algumas pessoas. Deveria. Um dos pontos fortes do filme é não ficar apenas nas previsões catastróficas, mas também apresentar soluções de mudanças de hábitos que podemos adotar agora para garantir a nossa própria sobrevivência. Johan Rockstrom chega a dizer que, mesmo que você seja uma pessoa que não está preocupada com o coletivo e só pensa no seu próprio bem estar e da sua família, deveria estar preocupado com o clima. Afinal, todo mundo se beneficia em viver em um planeta com ar mais puro, economias mais estáveis e menos chance de catástrofes ambientais. Ele tem razão. Adotar uma dieta com menos ou sem carne vermelha, e mais plantas como base, não só é mais saudável, como menos agressivo para o planeta. Diminuir a quantidade de lixo que geramos, também. E essas são escolhas que todos nós podemos fazer hoje, sem esperar a ação dos governantes ou outras autoridades. Mas nós também precisamos cobrar e agir pela redução urgente de emissões de gases poluentes, adotando fontes de energia limpas e renováveis, por exemplo. A crise hídrica que o Brasil enfrenta neste momento é só mais uma maneira de o planeta nos mostrar de forma contundente que precisamos parar e repensar. Outra sugestão dos especialistas do filme é, não só preservar os nossos biomas, como também recuperá-los, plantando árvores. Que o diga o Rio Iguaçu e tantos outros, que sofreram grandes desmatamentos em suas bacias, praticamente secos no momento. Juntas, essas ações podem transformar nosso futuro no planeta. E ainda melhoram a nossa vida agora. O que fizermos nesta década será determinante para as condições do planeta nos próximos séculos, ou seja, para a vida humana por aqui. Além das sugestões do filme, precisamos de uma ação articulada entre setores da sociedade e países. A pandemia nos mostrou claramente que o que acontece em um lugar pode rapidamente afetar todos os outros. Por isso, é tão importante começar fazendo a nossa lição de casa, mas depois também ajudar nosso vizinho que não completou a dele. Um caminho para isso é olhar para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, os ODS. Eles listam metas concretas para desafios como erradicação da pobreza, educação de qualidade, igualdade de gênero, água potável, etc. e sintetizam um conjunto de ambições dos países das Nações Unidas para essa década. Justamente o período decisivo para não ultrapassarmos os limites do planeta. As ODS são metas para 2030, com foco na economia, na sociedade e no planeta. São 17 pontos que devem ser encarados não como coisas separadas que se complementam, mas como indissociáveis. Essa é a proposta do trabalho de Johan Rockstrom e Pavan Sukhdev, que coloca os ODS como um “bolo de noiva”, deixando claro que eles são integrados e também que não há tempo para construirmos um por vez. Esse modelo deixa claro que um não anda sem o outro e que a natureza é a base para a sustentação para todos. Simplesmente porque não existe planeta B. Falamos nesses objetivos desde 2015 e, embora eles venham servindo de base para muitas ações estratégicas, ainda não são protagonistas de todos os planos e políticas públicas, como precisam ser. Se forem usados para orientar nossas estratégias em todos os aspectos, desde planos de negócios, projetos de infraestrutura e políticas de desenvolvimento, certamente nos levarão a uma economia mais próspera, com uma sociedade mais justa em um planeta mais saudável, com seus limites respeitados. *Sérgio Guimarães é secretário executivo do GT Infraestrutura, uma rede com mais de 40 organizações engajadas em promover as mudanças que o país precisa para ter uma economia mais sustentável e resiliente. Este artigo foi originalmente publicado na coluna do O Mundo Que Queremos, no Um Só Planeta.
No ar: Ricardo Baitelo fala sobre crise hídrica e importância de diversificar fontes de energia
Ouça o episódio e entenda o que o Brasil precisa fazer para passar por essa crise e evitar outras Estamos vivendo uma crise hídrica sem precedentes. A Agência Nacional de Águas declarou situação crítica em pelo menos cinco estados. O problema fica mais grave porque algumas grandes hidrelétricas ficam nesse local, o que coloca o país todo em risco de apagão. Tudo isso tem a ver com a mudança climática e também com a preservação das florestas, que é a nossa fábrica de chuvas. O que que podemos fazer para não ficar sem água e sem luz? Sérgio Guimarães e Ricardo Baitelo, do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA), conversam sobre esse assunto no episódio 13 do podcast Infraestrutura Sustentável, que já está disponível no Spotify do programa.
Privatização da Eletrobras pode aumentar em 25% as emissões de todo o setor elétrico, mostra estudo do IEMA
Impacto é decorrente da garantia de contratação de termelétricas a gás natural prevista na Medida Provisória A Medida Provisória (MP) 1.031/2021, sobre a privatização da Eletrobras que tramita no Senado Federal, além da venda da estatal, inclui a contratação de termelétricas que operarão em tempo integral. Caso aprovada, as emissões de gases de efeito estufa (GEE) anuais representarão um acréscimo de 13,1 MtCO2e, um aumento de 24,6% em relação às emissões do setor elétrico, e um aumento de 45% em relação às emissões do parque de termelétricas a gás natural verificadas em 2019. Os dados foram publicados no estudo “Questionamentos à inserção de termelétricas a gás natural na Medida Provisória 1.031/2021”, do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA). Ele pode ser acessado aqui. Entre 2026 e 2028, a MP prevê a inserção de 6 GW em termelétricas a gás no Sistema Interligado Nacional (SIN), sistema de produção e transmissão de energia elétrica entre as regiões do Brasil, em regime de operação inflexível, ou seja, funcionando durante o ano todo. Atualmente, as termelétricas são acionadas quando as hidrelétricas estão com baixo volume de água no reservatório ou para assegurar a geração firme de energia. Como esse tipo de geração de eletricidade custa mais caro, o valor da conta de luz aumenta e a bandeira vermelha tarifária é acionada. Segundo o texto atual da MP, as termelétricas deverão operar com capacidade mínima de 70% por pelo menos quinze anos. A instalação das térmicas será dividida nas regiões Norte, Centro-oeste e Nordeste. “Ao propor uma reserva de mercado para usinas termelétricas, a Medida Provisória, se aprovada, poderá levar a um impacto indesejável na competitividade dos leilões de energia elétrica, elevando os custos do sistema elétrico. Além disso, aponta no sentido contrário ao da descarbonização da matriz elétrica”, explica André Luís Ferreira, diretor do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA). O texto proposto da MP privilegia a matriz térmica em detrimento das fontes mais limpas justamente em locais adequados para suas instalações, como o Nordeste, que apresenta altos índices de irradiação solar e regime de ventos ideal para a geração eólica. O uso de termelétricas faz sentido em complementação à geração renovável. A proposta da MP coloca as térmicas à frente da geração renovável, provocando um potencial desperdício dessas fontes. Mais termelétrica a gás, mais emissões O cálculo apresentado no estudo realizado pelo IEMA estima as emissões anuais resultantes da inserção de 6 GW em usinas termelétricas a gás natural previstas pela MP escalonadas em 1 GW em 2026, 2 GW em 2027 e 3 GW em 2028. Os fatores de capacidade considerados são de 70%, de acordo com o mínimo previsto na proposta, e de 80%, segundo simulação realizada no Plano Decenal de Expansão 2030 (PDE 2030). O rendimento médio utilizado das usinas foi de 57%, considerando um valor médio das usinas de ciclo combinado em operação atualmente no Sistema Interligado Nacional (SIN). De acordo com dados de dezembro de 2020 do Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), o Brasil emitiu 2,2 bilhões de toneladas de gases de efeito estufa (GEE) em 2019. A geração de eletricidade foi responsável por 53,4 milhões de toneladas por conta do acionamento de usinas termelétricas. “O risco de racionamento é consequência de um novo período hidrológico desfavorável, que impacta o nível dos reservatórios, aliado ao atraso no planejamento da expansão do sistema de transmissão de eletricidade”, diz Ricardo Baitelo, coordenador de projetos do IEMA. A receita para compensar esses períodos, que tendem a ser mais frequentes devido às mudanças climáticas, passa necessariamente pela diversificação da matriz elétrica, com o aumento da participação de energias renováveis flexíveis. A MP tem prazo para discussão e aprovação no senado até o dia 22 de junho. Caso não haja consenso, a discussão volta para a Câmara dos Deputados.
É a floresta, estúpido!

O Brasil enfrenta uma crise hídrica e energética que ameaça nossa segurança e a retomada econômica. A prioridade deve ser preservar as florestas, porque elas são a fábrica das chuvas Nas eleições americanas de 1992, o marqueteiro de Bill Clinton, James Carville, cunhou uma frase que fez com ele vencesse o até então favorito George Bush: “É a economia, estúpido!” A mensagem que ele queria passar é a de que a economia é mais importante que os outros aspectos para definir os rumos de um país e também os resultados de uma eleição. Naquela época, o então presidente Bush falava sobre os triunfos da Guerra do Golfo, mas o que o cidadão americano queria mesmo era propostas que influenciariam diretamente na melhoria de sua qualidade de vida, o que ficou provado nas urnas. Se Carville tivesse que bolar um jargão para o Brasil de hoje seguindo a mesma lógica, certamente ele poderia pensar em uma frase com a mesma estrutura, trocando a palavra “economia” por “floresta”. Estamos vivendo uma crise hídrica sem precedentes, que fez com que as autoridades de todo o país tivessem que parar, em meio a uma crise sanitária, para discutir energia. Isso porque a falta de chuvas deixou os reservatórios das hidrelétricas com níveis perto do colapso, o que ameaça causar apagões em várias regiões. Os governos já começaram as campanhas de conscientização da população, pedindo para diminuir o tempo de banho ou lembrar de desligar as luzes. Mas o que essas mensagens deveriam estar pedindo é que todos parassem imediatamente de destruir nossas florestas. O mundo todo sabe disso, mas parece que os brasileiros precisam ser lembrados de porque parar o desmatamento é tão fundamental. As florestas são as produtoras de chuvas. Isso é ciência básica. As raízes das árvores são fundamentais para puxar a umidade do solo e subsolo e levar até as folhas, que passam a água para a atmosfera por um processo chamado evapotranspiração. Segundo os cientistas, cada árvore adulta lança até quatro litros de água por metro quadrado de copa todo dia. Por isso, a crise energética tem relação direta com o desmatamento. Se o problema é a falta de chuva, precisamos lembrar onde é que elas são formadas: na floresta. Um país que, como o Brasil, depende de energia hidrelétrica deve abraçar todas as árvores. As florestas precisam ser consideradas infraestrutura tanto quanto as turbinas ou os geradores. Com uma diferença importante. Se uma turbina ou gerador quebrar, você conserta ou troca. Já uma floresta destruída é muito mais difícil de ser recomposta. Uma pessoa que desmata a floresta tem que ser punida como alguém que vandaliza a turbina de uma hidrelétrica. Sem floresta não tem chuva. Sem chuva, não tem hidrelétrica. Sem hidrelétrica não tem energia. Aliás, mesmo que finalmente investíssemos em outras fontes de energia, ainda precisaríamos de água para beber e irrigar. “A floresta é nossa infraestrutura natural mais preciosa”, afirma Sergio Guimarães, secretário executivo do GT Infraestrutura, uma rede de mais de 40 organizações. “A floresta atua como regulador do clima no planeta todo e estamos chegando ao ponto de não retorno na maior floresta do Brasil, a Amazônia. Se ultrapassarmos esse limite, todo o bioma que gera as chuvas para o Brasil e equilibra o clima do mundo, começa a entrar em colapso sozinho, secando e virando uma savana com solos arenosos expostos. Precisamos impedir isso agora.” E ainda tem a crise econômica, para a qual uma das saídas é explorar a floresta em pé, de maneira sustentável, sem prejudicar a nossa fábrica de chuvas. Um estudo recém publicado acaba de mostrar que apenas a exploração mais inteligente dos produtos sustentáveis da floresta que já comercializamos poderia render R$ 10 bilhões por ano ao Brasil. Não é muito difícil enxergar: é a floresta, estúpido! Este artigo foi escrito por Alexandre Mansur e Angélica Queiroz e publicado, originalmente, na coluna Ideias Renováveis, da Revista Exame. Foto: Cascata do Caracol, no Rio Grande do Sul (Renato Soares/Divulgação)
Quando incluídos os custos ambientais, térmicas a gás são economicamente inviáveis

Recém-lançado, estudo do Escolhas analisou as taxas de retorno de investimentos em hidrelétricas, térmicas a gás natural e óleo combustível, eólicas e solares fotovoltaicas Na semana em que o governo anunciou medidas paliativas ante a crise hídrica e energética que se instalou no País, causada pela falta de planejamento e gestão dos recursos hídricos e energéticos, o Instituto Escolhas divulga estudo inédito mostrando que as térmicas a gás natural (aposta errada do governo para conter um possível apagão) são economicamente inviáveis – não trazem uma taxa interna de retorno (TIR) para o investidor – quando incluídos os custos ambientais na conta. Utilizando os mesmos modelos econômico-financeiros adotados pelo mercado, o estudo “Como incluir o meio ambiente na matemática dos negócios?” analisou a rentabilidade financeira de usinas hidrelétricas na Amazônia, termelétricas a gás natural e a óleo combustível, eólicas e solares fotovoltaicas, incluindo em seus fluxos de caixa os custos dos impactos ambientais dos empreendimentos, como as emissões de gases de efeito estufa e o uso da água – o que ainda não é feito. De acordo com Larissa Rodrigues, gerente de Projetos e Produtos do Escolhas, assim como em outros setores, os investimentos no setor elétrico são decididos e priorizados pelas empresas com a análise de modelos econômico-financeiros, que projetam os fluxos de caixa dos projetos de usinas e calculam a sua rentabilidade, indicada pela Taxa Interna de Retorno (TIR). “O dinheiro é aplicado nas usinas com TIR mais alta, que são mais rentáveis. Ao incluir os impactos ambientais nos modelos de negócio, deixando de tratá-los como meras externalidades, o estudo dá a real dimensão da rentabilidade das usinas, possibilitando que os investimentos sejam priorizados para as fontes renováveis, como eólica e solar, que possuem boa rentabilidade”. Destaques do estudo Os resultados mostram que as termelétricas a gás natural e a óleo combustível, quando operam a plena carga no sistema elétrico, não possuem rentabilidade financeira e investidores terão prejuízos ao apostar nessas usinas. Já as hidrelétricas na Amazônia apresentam uma rentabilidade bastante reduzida e deixam de ser atrativas para o investidor. De acordo com o estudo, a rentabilidade mais alta se encontra em usinas eólicas e solares, já que nos dois casos os custos ambientais são bastante reduzidos e quase não impactam nas respectivas taxas de retorno de investimento. Como conclusão, o estudo traz uma proposta de método prático para que os investidores e a proteção ao meio ambiente caminhem juntos, com a inclusão dos custos ambientais nas análises empresariais de rentabilidade financeira para novos investimentos no setor elétrico. Além disso, destaca ser fundamental que os bancos adotem mecanismos, como uma matriz de riscos ambientais, para que as avaliações ambientais dos financiamentos tenham critérios objetivos e que os recursos sejam direcionados para projetos alinhados com os compromissos dessas instituições com o clima e o meio ambiente. Confira aqui o sumário na íntegra. Texto: Comunicação Instituto Escolhas